Nem mesmo o regime mais assassino ou a guerra mais sangrenta podem ser tão cruéis quanto a História. Quando o desespero e as lágrimas de milhões de indivíduos se tornam estatísticas, e grandes tragédias do passado de tão estudadas não nos chocam mais, arrastamos para o campo da superficialidade a única coisa que as vítimas de massacres como o Holocausto puderam salvar da morte: suas lições.
Embora os horrores da Segunda Guerra Mundial sejam tema recorrente na literatura e no cinema, eu jamais havia conseguido mergulhar de verdade no drama vivido pelo povo judeu durante o nazismo. É claro que sabia o quanto aquele episódio tinha sido ruim para a humanidade, mas nunca houve uma noite sequer em que o sofrimento daqueles homens, mulheres e crianças tirasse o meu sono. Até ler Maus.
Detalhe da história em quadrinhos "Maus".
Tom & Jerry barra-pesada
Se o filme "A Vida é Bela" Suscitou um debate na comunidade judaica francesa sobre a validade do humor em relação ao Holocausto, imagine a reação diante de uma história em quadrinhos, arte e meio de comunicação que ainda é vítima de preconceitos do tipo "gibi é material de consumo infantil, com desenhos ruins e roteiros simplistas". Pois bem, existe uma HQ sobre a perseguição de Hitler aos judeus na 2ª Guerra Mundial. Chama-se "Maus - A História de um Sobrevivente" e divide-se em dois volumes em preto-e-branco (ambos lançados no país pela Brasiliense).
Seu autor, Art Spiegelman, 50 anos, é um dos mais célebres cartunistas americanos de vanguarda (foi co-editor da revista RAW). Nascido em Estocolmo e criado em Nova York desde guri, é filho dos poloneses Vladek e Anja, ambos sobreviventes de Auschwitz, o maior e mais famoso campo de concentração nazista. Sua mãe depressiva desde jovem, suicidou-se em 1968, e seu pai, um eterno lutador, morreu em 1982. Esta história, e como ela o afeta, é o que Spiegelman conta em Maus, que, produzida entre 1978 e 1991, recebeu 2 prêmios importantes: O "Yellow Kid" em 1986, concedido pelo Salão de Lucca na Itália, e, em 1992, o "Pulitzer", o maior do mercado editorial dos Estados Unidos.
O título da obra "Maus" em alemão significa "camundongo". Isso porque o autor representou os judeus como ratos, os ratos são claro, os nazistas. Os porcos são os poloneses não-judeus e os simpáticos cachorros são os americanos. O resultado foi mais pungente do que se Spiegelman tivesse usado humanos. E, como no filme de Benigni, a tragédia é permeada com uma comovente história de amor. (Ticiano Osório)
Art Spiegelman foi agraciado com o “Prêmio Especial Pulitzer” pela obra. Maus é considerada uma das mais importantes graphic novel de todos os tempos, e é um livro obrigatório para qualquer um que se interessa pelas guerras que são travadas dentro e fora do coração do homem.
Fonte: Núcleo de Tecnologia São José